Por Dra. Francyne Elias-Piera
A COP30 chegou à segunda semana carregando um clima de ineditismo que até veterano de conferência está comentando. O primeiro ponto é a velocidade. Pela primeira vez, a pauta de negociações foi aprovada logo no primeiro dia, quando normalmente esse processo emperra por dias. Esse adiantamento deu corpo a uma segunda novidade: o documento consolidado pela Presidência, que saiu no domingo, já delimita os grandes blocos que vão dominar as negociações daqui pra frente. Financiamento, transparência, metas e comércio climático formam o centro nervoso do que está em disputa, somados à adaptação e à transição justa, que finalmente estão ganhando o peso que deveriam dentro da agenda global.
Outro marco é o tamanho da conferência. Com mais de 3.800 brasileiros credenciados e 191 países presentes, a COP30 se tornou a segunda maior de toda a história. Belém virou um tabuleiro complexo onde cientistas, governos, negociadores e movimentos sociais tentam empurrar o mundo na direção de um acordo possível.
E aí surge o terceiro ineditismo: a Colômbia se tornou o primeiro país a anunciar publicamente o fim da exploração de combustíveis fósseis na Amazônia. O gesto é histórico, simbólico e muito mais ousado do que a maioria dos países presentes está disposta a admitir.

Mas, no meio desses avanços, existe uma contradição difícil de engolir. A primeira semana da COP repetiu inúmeras vezes a necessidade de adotar o “mapa do caminho” para a transição energética, um roteiro defendido pelo Brasil e apoiado por 62 países. Só que esse mesmo mapa simplesmente não apareceu no texto oficial de resumo, frustrando quem esperava ver o tema consolidado logo no início. Para piorar, o debate acontece semanas depois de ter sido autorizada a exploração de petróleo na foz do Amazonas, justamente na região que deveria simbolizar o compromisso com a descarbonização. Enquanto a Colômbia anuncia que para de explorar petróleo na Amazônia, um dos anfitriões da COP aprova uma nova fronteira petrolífera. É o tipo de contraste que analistas e observadores não deixam passar.
O que está claro para quem acompanha de perto é que o segundo tempo da COP30 será decisivo. Sem um acordo sólido sobre financiamento, a conferência corre o risco de travar todo o resto da agenda. Já há sinais positivos, como o anúncio iminente da Alemanha sobre aportes ao novo fundo de proteção das florestas tropicais. Mas o plano de 1,3 trilhão de dólares continua sem adesão de países-chave, especialmente após o Japão anunciar que não vai apoiar. E, como vêm repetindo cientistas e negociadores: sem dinheiro real na mesa, a transição não acontece no ritmo que o clima exige.
As próximas horas vão mostrar se Belém será lembrada como a COP do avanço ou a COP das oportunidades perdidas. A receita está com os ingredientes na mesa. Falta saber se os países vão cozinhar juntos ou se cada um vai voltar para casa com o prato vazio.
Dra. Fran é fundadora e Presidente do Instituto Gelo na Bagagem, influenciadora digital, especialista em ecologia polar e ESG ambiental. Atua na formação de professores, criação de conteúdos educativos e palestras sobre Antártica, mudanças climáticas e oceanos.
